ENTREVISTA: Jon Oliva detalha seu papel na nova fase do Savatage e o que os fãs podem esperar dos shows no Brasil


Entrevista também disponível em vídeo com legendas.
Assista no YouTube: https://youtu.be/4ShcDK0o12Y?si=Xxmleg0ApcPgyH03


“Estou me sentindo péssimo”, respondeu Jon Oliva, de câmera desligada, ao ser perguntado sobre seu estado de saúde. Nesta entrevista exclusiva, o vocalista do Savatage abriu o jogo sobre o retorno da banda aos palcos, do qual não participará, seus planos para o futuro e suas memórias do Brasil. Em recuperação de um acidente que quase o matou, Oliva, 64, revelou que o grupo, completo por Zak Stevens (vocais), Chris Caffery (guitarra), Al Pitrelli (guitarra), Johnny Lee Middleton (baixo) e Jeff Plate (bateria), tem um álbum quase pronto e falou sobre a sonoridade do novo material. 

Ele também relembrou momentos marcantes da carreira, como a criação dos clássicos Power of the Night (1985), Hall of the Mountain King (1987), Gutter Ballet (1989) e Streets (1991), cujo legado exemplifica a versatilidade do Savatage e a importância de explorar diferentes estilos musicais. Ao compartilhar suas melhores lembranças de shows no Brasil, incluindo o Monsters of Rock de 1998, Jon lamentou não poder estar presente na edição de 2025 do festival, mas garantiu que seus colegas farão um show memorável no Allianz Parque no próximo dia 19.

Boa leitura!


Por Marcelo Vieira

Fotos: Divulgação


Primeiramente, os fãs estão preocupados com a sua saúde. Como você está se sentindo agora e como tem lidado com os desafios?

Estou me sentindo péssimo. Aprendi minha lição: nunca frature a coluna. É incrivelmente doloroso e a recuperação é lenta. Infelizmente, fraturei a minha em três lugares. Tirando isso, estou bem… quer dizer, dentro do possível. Não consigo cantar, nem me movimentar direito, pois ainda não me recuperei totalmente e não posso fazer fisioterapia. Estou de mãos atadas, e isso é frustrante. Mas o que posso fazer? Acidentes acontecem. Se eu tivesse desviado um pouco mais para a esquerda, estaria morto. Meu carro foi destruído, e eu escapei por pouco de uma árvore.


Bem, que bom que você está vivo, cara!

Digo o mesmo! Foi assustador. Um acidente bizarro. Perdi o controle do carro em uma poça de água na estrada, aquaplanei e bati em uma árvore. A árvore partiu meu carro ao meio, e por pouco não me atingiu.


Esse acidente forçou você a se afastar dos palcos, mas você continua como diretor musical do Savatage. Como tem sido essa nova dinâmica para você e para a banda?

Foi tudo muito estranho, sabe? Eu tinha começado a organizar a turnê quando sofri o acidente e fiquei sete meses no hospital. Meus empresários, então, decidiram cancelar tudo. Pensei bem e conversei com os caras. Propus que eles tocassem sem mim nesse período, e quando eu melhorasse, retomaria tudo como antes. Eu não queria decepcionar os fãs do Savatage, pois todos estavam ansiosos pelos shows, assim como os integrantes da banda. Sofri um acidente que atrapalhou tudo, mas não sou egoísta a ponto de pensar que, se eu não estiver presente, ninguém mais estará. Então, conversei com todos, montei um set list e propus: “Se vocês querem fazer isso, vamos em frente. Estou com vocês. Participarei de todos os ensaios e cuidarei da direção musical”. Os caras estavam famintos por isso. Eles se sairão muito bem, tenho certeza. Vão arrasar. Queria estar lá, mas, por limitações físicas, não posso. Não subirei ao palco se não estiver 100%. Com essa lesão, não consigo cantar no meu máximo, e não vou me apresentar abaixo do meu potencial. Prefiro deixar os outros tocarem agora, e quando eu estiver recuperado, espero que no segundo semestre, poderei voltar à estrada.


Essa volta é apenas um evento comemorativo ou podemos esperar novos lançamentos do Savatage?

Estamos com um álbum quase todo pronto, resultado do meu trabalho e das colaborações com Chris Cafferty e Al Pitrelli. Basicamente, já temos todo o material. Estávamos nos preparando para trabalhar juntos quando o acidente aconteceu. Eu estava a caminho do estúdio, sabe, e foi um momento muito ruim. Não tinha o que fazer. Foi um acidente bizarro, sabe? Mas essas coisas acontecem. Tenho sorte de estar vivo. Quando me recuperei, vi que decidiram deixar os caras tocarem na América do Sul e talvez na Europa. Assim, começaremos a trabalhar no álbum. Posso fazer isso agora, mas não consigo me apresentar ao vivo. Minha coluna não aguenta ficar de pé por muito tempo. Não consigo cantar como de costume, usando o diafragma. E tentar cantar com a coluna fraturada é extremamente doloroso, como ser esfaqueado com uma chave de fenda. Então, até que eu melhore, enviarei os outros para arrasar. Eles estão muito animados, e eu também. Temos algumas surpresas reservadas.


O que você pode adiantar sobre o novo material? Ele segue a linha de Poets and Madmen (2001), com elementos orquestrais e progressivos, ou é algo mais tradicional dentro do heavy metal?

É um álbum bem variado, com músicas pesadas e sombrias, outras no estilo progressivo do Queen. Tem tanta coisa que talvez precise lançar um álbum duplo. Tenho muito material bom, e não vou lançar algo ruim só para ter um álbum do Savatage. É isso aí! Cada música será nota dez. E até agora, todas as que trabalhamos estão realmente ótimas. Acho que vocês vão adorar.



Como está sendo a preparação para os shows no Brasil? Você tem participado dos ensaios?

Sim, e estou totalmente envolvido. Os caras vêm para a Flórida no meio da semana e teremos três semanas de ensaios. Estarei presente todos os dias, acompanhando os ensaios, garantindo que tudo esteja perfeito. Depois, embarcarei todos para o Brasil.


O que os fãs podem esperar dos shows no Brasil? Que tipo de atmosfera a banda quer criar?

Eles estão prontos para arrasar! Estão muito empolgados e famintos por esses shows. Serão incríveis! Montei um setlist excelente, com alguns clássicos e muitas músicas da era Zak. Acho que todos vão curtir muito, e a banda estará em plena forma!


Como você descreveria a relação da banda com os fãs brasileiros ao longo dos anos?

Nós amamos o Brasil! Foi difícil me despedir do país da última vez. Adoro caipirinha, devo ter bebido umas 50, mas, acima de tudo, amo os fãs brasileiros. Eles são apaixonados! Tocar aí é como se sentir um Beatle, sabe? A galera canta junto, conhece as letras melhor do que eu! É incrível! Fico muito chateado por não poder estar presente, acredite, estou muito decepcionado. Mas, ao mesmo tempo, estou muito animado por eles. A única razão para não termos cancelado a turnê após meu acidente foi a lealdade dos fãs. Não podia fazer isso com eles. Pense na gente como um time de futebol, e eu sou um jogador machucado, na reserva. É a melhor analogia que consigo pensar.


O show do Savatage no Monsters of Rock de 1998 marcou muitos fãs brasileiros. Quais são suas memórias daquele festival?

Nossa, adoro essa lembrança! Estávamos eu e Al Pitrelli na lateral do palco, perto da escada, quando ouvimos um rugido ensurdecedor da plateia. Fiquei me perguntando: “O que foi isso?” E alguém nos disse: “Eles acabaram de anunciar ‘Savatage’ e os fãs enlouqueceram!” Lembro disso como se fosse hoje. E também me lembro de tocar “Gutter Ballet” e ver milhares de pessoas pulando sem parar. Achei que o estádio ia desabar! Olhei para o Al e pensei: “Como vamos sair daqui?” Acredite, foi impressionante! Eu poderia jurar que vi o andar superior tremendo. Foi surreal, mas o show foi incrível e o público, sensacional.


Em 2001, vocês voltaram ao Brasil para cinco shows. Como foi a recepção do público em comparação com 1998?

Foi praticamente a mesma coisa. Os shows eram menores, sem estádios, mas a energia do público era a mesma. Eles amavam a banda! O que mais posso dizer? Eu amo o Brasil! Os fãs daí são os melhores do mundo, sem dúvida.



O Savatage tem uma história rica e influente no metal. Olhando para trás, quais são os momentos mais memoráveis da carreira da banda para você?

Bem, Power of the Night (1985) e Hall of the Mountain King (1987) foram nossos dois primeiros álbuns de verdade. Sirens (1983) e The Dungeons Are Calling (1985) foram feitos com orçamentos baixíssimos, gravamos ambos em 24 horas, se não me engano. Já Power of the Night foi a primeira vez que passamos quatro ou cinco meses em um álbum, trabalhando com um produtor de verdade, Max Norman, que também trabalhou com Ozzy Osbourne. Hall of the Mountain King marcou nosso primeiro videoclipe e a primeira parceria com Paul O’Neill. Esses dois álbuns foram importantes para definir nossa direção. 

Depois, vieram Gutter Ballet (1989) e Streets (1991), quando estávamos no auge, com Criss [Oliva], Paul e eu trabalhando juntos. Acho que isso transparece no material. Paul trouxe à tona nosso lado Queen em Gutter Ballet, com músicas como “Gutter Ballet”, “When the Crowds Are Gone” e “Temptation Revelation”. Ele me incentivava a tocar mais piano, dizendo que eu era ótimo nisso e que me lembrava o Queen. No Streets, exploramos todas as facetas da banda. 

Sempre odiei o Savatage ser rotulado como banda de heavy metal, porque éramos muito mais que isso. Tocávamos heavy metal, sim, mas também outras coisas, como Queen e Beatles, que misturavam peso e leveza. Nós tínhamos músicas como “Agony and Ecstasy” e “Hall of the Mountain King”, mas também “Believe” e “If I Go Away”. Éramos versáteis, e acho que isso nos diferenciava. Não queríamos repetir a mesma fórmula em todos os álbuns, como muitas bandas fazem. Queríamos sempre experimentar algo novo.


Já que você falou sobre esse aspecto de peso e leveza da música do Savatage, qual é sua balada favorita e qual é sua música pesada favorita do Savatage?

Minha balada favorita é “When the Crowds Are Gone”, e a música pesada, “Beyond the Doors of the Dark”.


Boas escolhas!

Escolhi “Beyond the Doors of the Dark” porque ela nasceu de um pesadelo. Acordei e, ainda meio grogue, escrevi a letra toda. Não precisei corrigir nada. No dia seguinte, eu e meu irmão montamos a música. Adoro aquele riff inicial! É demais!



Bem, eu gostaria de falar sobre Dead Winter Dead (1995) porque a história por trás deste álbum se conecta aos eventos da guerra da Bósnia. Já que temos a guerra na Ucrânia, podemos esperar que o Savatage aborde algo sobre esse assunto?

Bem, tocar algumas músicas já é o suficiente. Eles vão tocar “Dead Winter Dead” e “This is the Time”. Acho que isso já mostra o nível dos caras. Quero que eles subam no palco e arrebentem. Não quero entrar muito nas discussões sobre guerra, já fizemos isso, e todos nós a odiamos.


Poets and Madmen é o último álbum de estúdio do Savatage. Como você o enxerga dentro da discografia da banda?

Adoro o Poets. Acho um ótimo álbum, apesar de ter sido um processo estranho. Escrevi boa parte do material para o Zak cantar, mas ele saiu antes de gravarmos os vocais. Então, tive que cantar músicas escritas para a voz dele. Foi um desafio, pois tive que adaptar meu tom ao dele. Fiquei muito satisfeito com o resultado, pois me esforcei bastante. Acho que o álbum ficou excelente.


Qual era a mensagem por trás do álbum The Wake of Magellan?

Serei sincero, até hoje não sei sobre o que diabos é esse álbum. [Risos.] A história por trás dele é engraçada. Eu escrevi boa parte do material, com e sem Chris Caffery e Al Pitrelli, e sempre perguntava ao Paul sobre o tema do álbum. Ele me respondia com evasivas, e no fim, lançamos o álbum sem um conceito claro. Na primeira entrevista, me perguntaram sobre o significado de The Wake of Magellan, e eu respondi: “Não faço ideia, acho que é sobre um barco”. [Risos.] A verdade é que não sei. Sei que tem algo a ver com exploradores e drogas, mas tudo que fazíamos na época tinha alguma relação com drogas. No fim, improvisei uma resposta sobre jornadas e coisas do tipo. E mesmo perguntando ao Paul até o dia em que ele morreu, ele nunca me deu uma resposta clara. Ele só dizia: “Deixa pra lá, vou mandar todo mundo te perguntar”.


Para os fãs brasileiros, Edge of Thorns (1993) e Handful of Rain (1994) são álbuns muito especiais. Como você os compara, tendo participado de ambos?

Bem, é simples. Edge of Thorns foi uma vitrine para meu irmão e para o Zak. Handful of Rain, por outro lado, foi quase um álbum solo meu, com algumas participações do Zak e solos do Alex Skolnick. Edge of Thorns foi escrito e pensado especificamente para dar destaque ao Criss. Eu tive que me afastar por causa da minha voz, e precisávamos de um novo vocalista. A ideia era que o Zak não seria o único vocalista. Queríamos alguém para Edge of Thorns, e eu não queria alguém que tentasse soar como eu. Meu plano era voltar no próximo álbum e termos dois vocalistas, eu e o Zak. Por isso escolhi o Zak, porque sua voz era muito diferente da minha. Mas aí o Criss morreu, e essa ideia nunca se concretizou, o que é muito triste, porque acho que teria sido incrível. 

Essa é a grande diferença entre os dois álbuns. Edge of Thorns apresenta meu irmão, e a guitarra dele nesse álbum é, sem dúvida, seu melhor trabalho. Handful of Rain se destaca por ser basicamente eu sozinho, sem a banda. Johnny [Lee Middleton] e Steve Wacholz não participaram do álbum, embora eu tenha dado crédito a eles. Era muito cedo após a morte do Criss, e eles não estavam prontos. Mas eu precisava fazer algo, ou iria enlouquecer. Paul me incentivou a entrar no estúdio e fazer algo, e foi o que fizemos. Íamos para o estúdio todos os dias, e eu escrevia sozinho durante o dia. À noite, Paul chegava, ouvíamos o que eu tinha feito e montávamos as músicas. E foi assim que Handful of Rain foi escrito. Eu escrevia durante o dia, trabalhava com o Paul até tarde da noite e gravava até de madrugada. Esse era o nosso processo.



Qual sua opinião sobre Fight for the Rock (1986) hoje? É um disco a ser redescoberto?

Ah, Fight for the Rock… Serei honesto, foi um período complicado. Éramos jovens e fomos enganados pela nossa antiga gerência, que nos colocou em uma situação difícil. Muitas das músicas foram escritas para outros artistas, mas a gerência, além de nos roubar mais de um milhão de dólares, nos levou para Londres, impedindo que voltássemos para casa. E lá, nos obrigaram a gravar essas músicas. “O quê?”, pensamos. As únicas músicas do Savatage que tínhamos eram “Fight for the Rock”, “The Edge of Midnight” e “Hyde”. As outras eram para outras bandas. Não tínhamos escolha: estávamos em Londres, sem dinheiro. Gravamos e pensamos: “Resolvemos isso depois”. Foi o pior período da banda. A decepção foi enorme. Descobrir que fomos roubados em uma quantia tão grande é difícil de superar. “Você tem dinheiro?” “Não, estamos falidos.” “O quê?”.


Para encerrar, qual você acha que é o maior legado do Savatage para o metal?

Variedade e autenticidade são essenciais. Seja verdadeiro consigo mesmo e evite repetir a mesma fórmula. É preciso experimentar coisas novas para manter a música fresca. Não dá para tocar apenas heavy metal o tempo todo, senão as músicas começam a soar iguais. O Savatage sempre buscou essa variedade, e acho que outras bandas deveriam seguir o exemplo. Tocamos heavy metal, baladas, músicas de andamento médio, rock and roll… de tudo um pouco. E acredito que isso é fundamental.


O Savatage se apresenta no Monsters of Rock, dia 19 de abril, em São Paulo, e em show solo imperdível, também na capital paulista, com abertura do Opeth, no dia 21. Garanta seu ingresso!

 

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